Vacina: o que é, como é criada e como atua no nosso corpo?

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Há alguns meses que todas as atenções estão voltadas para o desenvolvimento da vacina do coronavírus. Mas você sabe quais são as etapas pelas quais uma vacina passa antes de ser aprovada e comercializada? 

No artigo de hoje, nós contamos um pouco sobre as avaliações às quais uma nova vacina é submetida e como elas garantem a segurança das pessoas que serão imunizadas. Acompanhe!

Começando pelo começo: o que é uma vacina?

A vacina é uma forma de treinar o seu sistema imunológico (ou seja, o nosso sistema de defesa) para reconhecer quando um organismo invasor entrar no seu corpo para te causar um prejuízo. Uma vez que o seu sistema imunológico esteja treinado, ele estará pronto para agir em sua defesa quando esse encontro acontecer.

Para isso, a vacina vai apresentar um pedaço do vírus ou bactéria invasora ao seu corpo. A intenção aqui é garantir que ele entenda quais células suas foram atacadas pelo vírus e consiga destruir essas células antes que elas se multipliquem. Além disso, o corpo deve também reconhecer quando há a circulação do vírus no nosso organismo, cobrindo o invasor de uma proteína que o neutraliza e impede de penetrar nas suas células.

Essa proteína são os chamados anticorpos, moléculas que atuam na defesa do seu organismo. Os anticorpos podem atacar diferentes partes dos vírus ou bactérias invasoras e é justamente por isso que existem também diferentes estratégias para criar uma vacina.

Como é criada uma vacina?

O primeiro passo para criar uma vacina é escolher uma estratégia de combate ao vírus. É possível desenvolver uma vacina usando o próprio vírus desativado, um pedaço dele, outro vírus semelhante, entre outras possibilidades. 

Os testes em animais

Em seguida, por questões éticas da ciência, serão iniciados os testes em animais ou em células desenvolvidas em laboratórios. Afinal, qualquer estratégia nova que possa ser criada não deve ser imediatamente testada em humanos, de forma que não possa causar prejuízo à saúde das pessoas.

Se a estratégia mostrar que funciona em animais, então a vacina passa para a fase 1 de testes de segurança.

Os testes de segurança

Nesse momento, você irá aplicar a vacina em pessoas saudáveis, ou seja, que não desenvolveram ainda a doença para saber se ela irá causar alguma reação negativa. 

Não foi encontrada nenhuma complicação? Ótimo, então, o estudo segue para a fase 2. 

Os testes de eficácia

Essa fase serve para verificar se será desenvolvida alguma resposta imune nas pessoas que receberem a vacina, ou seja, se o corpo passa a reconhecer o vírus a partir da vacina.

Caso essa fase tenha sucesso, o estudo segue para a fase 3.

A verificação da proteção

A fase 3 também trata da eficácia da vacina, porém de outro modo. Nesse momento, o que se deseja saber é se a resposta imune que foi alcançada é suficiente para proteger a pessoa dos males causados pelo vírus.

Para isso, a vacina será dada a pessoas que estão expostas ao vírus e esses participantes do estudo serão acompanhados, para ver se elas desenvolvem a doença ou não. Mas como saber se eles estão mais protegidos do que estariam sem a vacina? Através de grupos de controle.

O grupo de controle é feito de pessoas que também têm chance de exposição ao vírus. Porém, elas irão receber um placebo ou outra vacina qualquer, que não aja na proteção contra a doença que está sendo estudada.

Ao final desta fase, serão comparadas quantas pessoas pegaram a doença entre os que receberam a vacina e quantas pegaram entre os que receberam um placebo. Assim, é possível saber se a proteção está agindo de fato nos organismos estudados.

Por exemplo: em um grupo de 10 mil pessoas, 5 mil receberiam a vacina que está sendo criada e outras 5 mil receberiam o placebo. Se a vacina estiver mesmo sendo eficiente na prevenção da doença, então veremos uma disparidade entre a quantidade de pessoas que ficou doente nos dois grupos. O grupo vacinado terá, por exemplo, 35 pessoas que desenvolveram a doença, enquanto no grupo de controle esse número será, por exemplo de 300 doentes.

Ao fim da fase 3, o estudo da vacina será submetido a um comitê de ética, que irá analisar se os procedimentos científicos foram seguidos à risca, para considerar o estudo válido ou não.

A distribuição e comercialização

Se o comitê de ética deu o seu aval para a conclusão científica sobre a validade da vacina, então entramos na fase 4, quando ela passa a ser comercializada pelos laboratórios.

Porém, antes que chegue à população, os órgãos reguladores dos países, como a ANVISA no Brasil, precisam também fazer a sua avaliação sobre o estudo e autorizar que seja feita uma campanha de vacinação.

Mesmo com a vacina já disponível no mercado e sendo aplicada na população, o estudo continua: é a hora de observar se, quando é aplicada em escala massiva, ela causa algum efeito colateral.

E, claro, a vacina continua a ser pesquisada e atualizada ao longo do tempo, para garantir que ela continue eficiente contra as novas variantes dos vírus que surgirem. Ou seja, é um processo contínuo.

A eficácia da vacina e a sua relação com a imunidade de grupo

É quase impossível garantir 100% de vacinação em uma população porque sempre existem pessoas mais frágeis, que não podem ser vacinadas para a sua própria segurança, já que não conseguiriam reagir a um possível efeito colateral.

Alguns exemplos de pessoas assim são aquelas que têm doenças autoimunes, alergias aos componentes da vacina, que estão passando por tratamentos pesados de saúde e, portanto, estão com o seu sistema imunológico debilitado, ou até mesmo crianças muito novas. Então, como proteger essa parte da população?

É aí que entra o conceito da imunidade de grupo. A imunidade de grupo significa que o vírus não consegue mais circular numa população porque existe um número alto de pessoas que está imune a ele. Assim, ele não consegue encontrar quem o hóspede, para que ele possa se multiplicar e infectar mais pessoas.

Ou seja, para proteger essas pessoas mais frágeis da população é preciso garantir que o maior número possível de pessoas esteja vacinada, já que os vacinados agem como uma barreira contra o vírus.

A imunidade de grupo está diretamente ligada à eficácia de uma vacina, ou seja, o percentual de pessoas que aquela vacina consegue proteger da doença. Quanto menos pessoas vacinadas desenvolverem a doença significa que mais eficaz é a vacina no combate ao vírus. Por isso é tão importante acompanhar a penetração da doença no grupo vacinado em comparação com o grupo de controle.

Hoje, para ser considerada válida e poder ser distribuída à população, uma vacina precisa ter pelo menos 50% de eficácia. Uma vacina com 50% de eficácia garante a imunidade de grupo caso 100% da população seja vacinada. Como isso não acontece, é necessário conjugar uma vacina como essa a outras de mesmo efeito, para aumentar a resistência da população contra o vírus.

E, claro, quanto maior for o percentual de eficácia da vacina, menos pessoas precisam ser vacinadas para garantir que o vírus pare de circular entre a população. Por isso o valor da eficácia é tão importante: ele é uma das peças-chave para garantir a segurança de todos.

Uma vacina pode ser usada contra todas as variantes de um vírus?

Não necessariamente! Os vírus podem sofrer mutações e desenvolver novas formas que sejam resistentes à vacina. É o caso, por exemplo, do Influenza, causador da gripe. A vacina sazonal que é dada anualmente serve para algumas variações do Influenza, mas ainda não foi encontrada uma solução que abarque 100% das suas evoluções.

Quanto tempo é necessário para desenvolver uma vacina?

Ao longo de todas as matérias sobre a criação da vacina do coronavírus, uma informação era sempre repetida: esse não é um processo rápido.

Existem diversas variáveis que podem influenciar no tempo de criação e aprovação de uma vacina. Algumas delas são a existência de financiamento para os estudos, a disponibilidade de voluntários para os testes, a velocidade com que as pessoas se expõem à doença, a velocidade de resposta imune do corpo ao vírus estudado e até mesmo o tempo que o comitê de ética leva para analisar os resultados dos testes.

Normalmente, uma vacina leva até 5 anos sendo testada em animais para começar a ser inoculada em seres humanos. As fases de segurança geralmente leva até 2 anos para ser concluída, enquanto as fases de eficácia levam até 3 anos cada uma para obterem resultados conclusivos. Ou seja, somados todos os prazos, uma vacina pode levar 13 anos ou mais para ser criada.

Mas, é claro, nem sempre é necessário todo esse tempo para que uma nova imunização seja criada, como foi o caso com a vacina do coronavírus. Quando uma vacina é desenvolvida assim, em tempo recorde, significa que ela “cortou” uma parte do caminho porque se baseou em estudos que já eram desenvolvidos há anos por cientistas de todo o mundo.

Essas descobertas tinham sido feitas na intenção de criar vacinas para outras doenças e puderam ser aproveitadas para acelerar o processo de teste da vacina do coronavírus que nós tanto precisávamos.

E falando na vacina do coronavírus, quais são as que existem hoje no mercado?

Hoje não existe “a” vacina do coronavírus: são nada menos do que 136 candidatas a esse título, algumas já em fase de comercialização e outras chegando em breve nessa etapa. Por isso, vamos apenas falar sobre as mais famosas entre elas, que estão com o processo de fabricação mais avançado.

A primeira entre elas é a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório farmacêutico AstraZeneca, que chega ao Brasil ainda em janeiro para ser distribuída à população. Como teve participação de brasileiros nos seus testes, foi feito um acordo com a Fiocruz para permitir que a instituição produza e distribua essa vacina no país.

Outra vacina que está com o processo bastante adiantado é a CoronaVac, do laboratório chinês SinoVac. Ela foi desenvolvida em parceria com o Butantã e testada em brasileiros, o que garantiu à instituição o direito de produzir e comercializar essa vacina também a partir de janeiro.

A vacina da Pfizer, desenvolvida em parceria com a BioNTech, também fez testes no Brasil e já foi aprovada por diversos órgãos reguladores de outros países, como o Reino Unido, os Estados Unidos e a comunidade da União Europeia. Por enquanto, ela ainda não teve uma aprovação oficial da Anvisa para distribuição em território nacional.

Por fim, outra vacina muito comentada no momento é a da farmacêutica Moderna, que também já teve a sua comercialização autorizada nos EUA, na UE e em outros países. Por enquanto, ela não tem uma data para chegar ao Brasil.Gostou deste artigo e quer saber mais informações úteis para cuidar da sua saúde? Então, acompanhe outras publicações sobre saúde no blog do HAND!

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